Os 80 anos do Superman: os criadores não viram a cor do dinheiro

O guarda pediu os documentos porque o rapaz era muito desajeitado para estar num lugar como Miami Beach, ainda mais naquela época do ano. Quando a carteira se abriu na frente do policial, surpresa: havia ali um maço de dólares capaz de financiar uma semana inteira de farra. Questionado sobre onde conseguira tanto dinheiro, o rapaz disse que se chamava Joe Shuster.

E acrescentou:

— Sou o cara que desenha o Superman.

O guarda não teve dúvidas: agarrou o rapaz pelo gasganete e o levou à delegacia mais próxima. Depois de um longo interrogatório, Joe pegou um bloco de rascunho e rabiscou um desenho para provar que estava falando a verdade. A confusão terminou com dois pedidos do guarda que fizera a prisão. O primeiro foi de desculpas. E o segundo, é claro, um autógrafo.

Se essa história é verdadeira — e é, confirmada por dez entre dez historiadores dos quadrinhos — como explicar que não apenas Joe Shuster, mas também o roteirista Jerry Siegel, co-criadores do Superman, chegaram à velhice no mais completo e miserável dos anonimatos? A resposta só pode ser encontrada no pior gerenciamento de direitos autorais de toda a história da Indústria Cultural.

Siegel e Shuster tinham apenas 17 anos quando criaram os primeiros esboços de um personagem que se tornaria “multimídia” antes da expressão entrar em evidência. Como sempre, tiveram que bater pernas até encontrar quem se entusiasmasse com a ideia. A primeira aparição “pra valer” do Superman só ocorreria dali a 5 anos, em 1938, na capa da hoje lendária Action Comics#1.

A revista possui a data de junho, mas saiu antes, em abril, como era praxe entre as editoras da época. Foi um sucesso instantâneo, tanto que logo o personagem estaria no rádio e numa série de grande qualidade animada pelos estúdios dos irmãos Max e Dave Fleischer. Mais de 300 jornais americanos passaram a publicar a “tirinha” do Superman.

Tamanho sucesso acabaria por deturpar as expectativas dos dois garotos. Ingenuamente achando que a próxima criação repetiria o êxito, Siegel e Shuster aceitaram VENDER os direitos para a National Periodical Publications (hoje DC Comics, propriedade do grupo Time-Warner). Todo mundo sabe que artista não é empresário, mas o que aconteceu nos bastidores do Superman foi absurdo.

Enquanto Siegel e Shuster eram afastados da sua criação — e esquecidos dentro da própria indústria dos quadrinhos — o Homem de Aço só fez crescer em popularidade e faturamento. Mesmo os fãs mais ardorosos são incapazes de enumerar todas as publicações, desenhos animados, séries em live-actionspin-offs, brinquedos e games que se multiplicaram ao longo das décadas.

O personagem movimentou bilhões e bilhões de dólares nos últimos 80 anos.

Antes de morrer, Siegel e Shuster receberam uma espécie de prêmio de consolação. Segundo o relato de Gerard Jones no livro Homens do amanhã: geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis, as primeiras notícias sobre o lançamento de Superman: O Filme (1978), com Christopher Reeve, desencadearam um processo de reparação.

O velho e amargurado Siegel, então funcionário dos correios (!!!), procurou a imprensa para dizer que ele e Shuster, quase cego, não receberiam um centavo dos US$ 3 milhões que a Warner pagaria à DC para usar o personagem no cinema. Num programa em cadeia nacional, The Tomorrow Show, o roteirista lamentou a perda do Superman, além de se queixar da saúde e da modesta vida que levava ao lado da esposa, também doente.

Os fãs reagiram, indignados. O medo de um possível boicote ao filme fez a DC tomar providências. Mesmo sendo uma merreca em relação ao passe do personagem, Siegel e Shuster ganharam uma pensão anual vitalícia e conquistaram o direito de receber os créditos no filme, nos quadrinhos e na TV. É por causa de um acordo judicial que o nome deles aparece, por exemplo, em Batman vs Superman.

Mas da fortuna que o herói de Krypton faturou eles só viram umas migalhinhas insignificantes.

Fotos e link total de:https://veja.abril.com.br/blog/o-leitor/os-80-anos-do-superman-os-criadores-nao-viram-a-cor-do-dinheiro/