Martinho da Vila fala de Rock in Rio, diz que mudou letras machistas e comenta censura na ditadura

Martinho da Vila quis procurar “em todas as mulheres a felicidade” e, nessas, acabou encontrando algumas acusações de machismo. Em um de seus principais hits, ele enumera: “já tive mulheres… do tipo atrevida, do tipo acanhada, do tipo vivida, casada carente, solteira feliz, já tive donzela e até meretriz”.

Aos 79 anos, o sambista avalia que “a música, de modo geral, tem essa conotação machista”. E nem está falando especificamente de “Mulheres”, gravada por ele mas escrita na verdade por Toninho Geraes. “A maioria dos compositores, se você vir a história do Brasil, são homens. Poucas mulheres compuseram. Então, a música tem uma tendência masculina, entendeu?”, afirmou em entrevista ao G1.

Assista, à entrevista com Martinho da Vila.

Para ele, tem músicas antigas que hoje são criticadas mas que não pareciam ofensivas no passado (e isso só poderia ser evitado por “uma cabeça muito avançada”). Martinho argumenta que muda algumas letras na hora de cantar ao vivo. Cita, como exemplo, uma de sua autoria, “Você não passa de uma mulher” – que vira “Você é uma mulher”.

A entrevista aconteceu em hotel em São Paulo, onde Martinho estava para dois shows. Pessoalmente, o cantor soa – acredite – mais despreocupado do que no palco ou na TV. Pediu para atrasar o começo da conversa, porque queria almoçar. Surgiu depois sem parecer exatamente disposto a papo ou sorriso, mas é preciso reconhecer isso mudou assim que começou a gravação.

Ele lembrou ainda histórias de músicas censuradas na época da ditadura e falou sobre o show que faz no Rock in Rio nesta sexta-feira (15). Batizada de “Salve o samba”, a apresentação é uma homenagem aos 100 anos do gênero. Vai ter também Alcione, Jorge Aragão, Monarco, Mart’nália e Roberta Sá. Leia, a seguir, os principais trechos:

O sambista Martinho da Vila (Foto: Celso Tavares/G1)

O sambista Martinho da Vila (Foto: Celso Tavares/G1)

G1 – A Alcione, que vai tocar com você no show do Rock in Rio, é amiga do Axl Rose, do Guns N’ Roses. E você: tem algum amigo rock star?

Martinho da Vila – Não, dos internacionais eu não tenho, dos que vêm [tocar em 2017]. Gosto dessas bandas nossas de rock, que são bem legais. Gosto de Sepultura, é muito bom (risos). Gosto muito (risos).

G1 – Por que você gosta do Sepultura?

Martinho da Vila – Não sei. Porque eu vi um concerto deles uma vez, já toquei no Rock in Rio também, eles estavam também tocando outra parada.

“É um som maneiro, eles são os brasileiros que começaram fora do Brasil, achei a história deles musical muito boa. É interessantíssimo. E tem um som maneiro, o Sepultura.”

G1 – O que você acha da acusação de que alguns sambas antigos, inclusive músicas suas, são machistas?

“A música, de modo geral, tem essa conotação machista. Porque a maioria dos compositores, se você vir a história do Brasil, são homens. Poucas mulheres compuseram. Então, a música tem uma tendência masculina, entendeu?”

Agora, muita música que a gente faz, elas são femininas. Tem umas músicas que fico até meio sem graça de cantar às vezes, mas eu canto assim mesmo (risos). Tem várias. Por exemplo, “Amanhã é sábado”, do disco mais recente, fiz pra Roberta, “Danadinho danado”, que eu fiz para Alcione, tem outras assim. São músicas como se fosse uma mulher falando.

Fiz uma que é como se eu fosse a Willy Mandela [viúva de Nelson Mandela] falando, chama-se “Meu homem”. O Chico tem uma porção também nessa parada.

G1 – Como você responde às críticas: fala que é só um eu-lírico, que são músicas de outra época?

Martinho da Vila – Tem muitas coisas que são de época. Só uma coisa muito avançada que não entra naquela coisa do tempo, né?

“Inclusive algumas músicas que dizem que são racistas e tal, mas elas não são. É que na época elas nem atingiam a pessoa (risos).”

G1 – Você chega a alterar alguma coisa na hora de cantar ao vivo, tem isso?

Martinho da Vila – Tem. Por exemplo, você falou de música machista… Tem uma que fui muito acusado: “Você não passa de uma mulher”. Foi só a frase. Se eu não tivesse colocado “não passa”, ela não seria machista (risos). [Mudou para] “Você é uma mulher” – pronto.

“Uma coisinha à toa muda muito em música. Aí, quando estou fazendo um show ao vivo, às vezes eu troco. E também quando esqueço a letra, invento outra na hora (risos).”

G1 – No caso das músicas mais recentes, você chega a se policiar na hora de escrever?

Martinho da Vila – Não. Não tenho nenhum grilo com isso, não.

G1 – Na época da ditadura, você ia pessoalmente tentar liberar as suas letras censuradas. Como era essa abordagem?

Martinho da Vila – Tem uma pessoas que falavam: “Não sei como é que essa música do Martinho passou da censura”. É que o mundo artístico de maneira geral – e todo mundo – tinha uma versão à censura enorme. Eu também. Mas eu não tinha a luta contra a censura como bandeira. Porque eu falei: “Cada um tem a sua área de ação. Isso já tem muita gente (risos)”.

E também, quando eles censuravam uma música, eu ia lá falar com eles, era uma correria. Eles estranhavam: “Nunca vi artista chegar num departamento de censura”.

“E chegava eu lá: ‘Bom dia, tudo bem? Eu queria falar com o diretor dos censores, pode ser ou não? Queria saber por que a minha música foi censurada’. Aí, ele explicava e eu dava um papo.”

Também tem aquela coisa da camaradagem. O sorriso também abre porta pra chuchu. O carrancudo já fecha a porta. O cara sorridente abre porta. Então, o jeito simpático e tal, aí liberei uma porção lá.

G1 – Na música ‘Que coisa louca’, você trocou o verso ‘que vulva, que vulva’ pelo verso ‘que uva, que uva’. A troca foi feita ali na hora, no departamento de censura?

Martinho da Vila – Ele [o censor] falava: “Martinho, isso aqui não pode”. Aí, eu dava uma trocada, e ficava às vezes até melhor. Da “Que coisa louca”, acho que era “que vulva”, aí eles não queriam. Aí, mudei: “Que uva”. O sentido era o mesmo (risos).

A música “Disritmia” é de um tempo em que eles não estavam querendo que se falasse de bebida. Tinham censurado a Elizeth Cardoso, que tinha gravado aquela música “Eu bebo, sim, estou vivendo” (risos).

Aí, cortaram “Disritmia”. Fui lá, e eles falaram: “É que agora não pode mais falar de bebida. Essa coisa está tão rígida, que veio lá de Brasília uma relação de palavras, vocábulos que não podem ser colocados”. Aquilo era a Bíblia deles. Eu olhei tinha lá e tinha: “beber”, “bebida”, “doidão” e não sei o que lá. Falei: “Mas ‘porre’ não tem aqui nesta lista!”. E ele: “Ih, é, não tem. Tá liberado”.

G1 – E aquela história de que você estava fazendo faculdade? Já terminou o curso?

Martinho da Vila – Eu ainda faço. Relações Internacionais, estou no terceiro ano. São quatro, mas acho que já vou dar um tempo. Entrei para a faculdade, porque sou embaixador da boa vontade da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa]. E, volta e meia, me convidam para fazer uma palestra, participar de um evento literário, cujo assunto é relações Brasil-África, o Brasil no mundo, essas coisas todas, que estão dentro das relações internacionais.

Fui estudar para conhecer a essência, a história das relações internacionais. Porque, aí, posso falar com mais propriedade quando for fazer uma palestra e tal. Mas, no duro, só fui para adquirir conhecimento.

“E, para adquirir conhecimento, não tem idade. Há um monte de adultos que têm o sonho e gostariam de entrar para a universidade mas não têm coragem (risos). Com a minha entrada, encorajei uma porção de gente já também.”

Muita gente já me falou isso. Muito legal, já cumpriu a minha missão.

G1 – Para muita gente, a faculdade marca a entrada na vida boêmia. E no seu caso?

Martinho da Vila – Não. Já foi muito isso, mas não é mais, não. Inclusive, um dos motivos pelos quais entrei na universidade, além de adquirir conhecimento, foi para fazer um estudo, uma pesquisa sobre o mundo universitário hoje. Sobre perfil dos professores, a própria universidade, perfil dos alunos, o mundo. Então, isso dá um livro bonito.

G1 – O que você conclui dessa pesquisa?

Martinho da Vila – Não tem uma conclusão, né? Dá para fazer um relato. Por exemplo, o perfil do aluno universitário mudou. No passado, aluno universitário tinha um biótipo, vinha de uma casta. Hoje, não.

“Hoje, você tem nas universidades particulares alunos de várias idades, tem negros em quantidade. A maioria dos negros já formados e pós-graduados que conheço eram o único negro na sala de aula na época deles. Hoje tem vários. Na minha sala, tem vários.”

E não só em termos raciais. Em termos sociais, economicamente, hoje tem formas de uma pessoa que não tem muita condição de pagar uma universidade particular, que é meio cara, planejar. Tem planos bancários, de financiamento. Isso muda bem a perfil do aluno universitário. Fica como a escola pública e particular. Meus filhos estudaram nas duas.

Os alunos de uma escola particular têm tudo uma cara. Da escola pública, eles têm outra cara de Brasil.

 

Martinho da Vila fala sobre o show no Rock in Rio 2017 (Foto: Celso Tavares/G1)

Martinho da Vila fala sobre o show no Rock in Rio 2017 (Foto: Celso Tavares/G1)

 







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