É paradoxal a crítica a Luciano Huck na política, diz Xico Graziano

Qual a matéria prima dos políticos? Críticas ao ensaio eleitoral de Luciano Huck me sugeriram tal questão. Pode um comunicador de sucesso ser candidato a presidente da República?

Cabe inverter a pergunta: para ser político precisa ser experiente no ramo? Sim, é a resposta comum. Normalmente se imagina que um bom político tenha obtido um aprendizado na carreira, primeiro vereador, depois deputado, prefeito etc. Nessa jornada ele aprimora seu conhecimento dos processos de decisão, entende melhor das leis, descobre o valor da negociação. É importante.

Por outro lado, carreiras políticas também ensinam como fazer conchavos, ser velhaco e oportunista, pensar uma coisa e falar outra, malversar, alimentando as experientes raposas que, da direita à esquerda, desgraçadamente comandam nosso corrompido sistema político. Tal perversidade gera asco na sociedade, estimulando a demanda por novatos. São essenciais.

Famoso dilema foi exposto há quase um século por Max Weber, em sua conferência-livro “A Política como Vocação”: há os políticos que vivem da política, e há aqueles que vivem para a política. E nem sempre, ressaltou o grande sociólogo alemão, a vocação do cientista, ou do intelectual, afina-se com a vocação do político. Distintas éticas caracterizam suas ações.

Que o diga Fernando Henrique Cardoso. Em 2012, ao receber o Prêmio Kluge, no Congresso dos EUA, ele confessou, baseado na própria bagagem, que a conciliação dessa dicotomia weberiana –a vida dupla de político e acadêmico– não chegava a ser um “pacto com o diabo”, conforme alguns imaginam, mas exigia vislumbrar uma difícil brecha entre a razão e a emoção. Poucos, como ele, virtuosamente a descobrem.

A dicotomia referida por FHC não é comum aos políticos. Pelo contrário. Eles normalmente se especializam na lide partidária, quase a transformando num negócio. Dedicam-se com exclusividade ao exercício do mandato popular. Uns, muito aplicados e zelosos, não encontram tempo para mais nada. Outros, a maioria, não sabem mais nada que fazer política. Viram profissionais.

São esses, os carreiristas, que dominam as máquinas partidárias e mantêm o establishment político. Buscam, nas eleições, preservar seus espaços longe dos candidatos “oportunistas”, que nunca disputaram eleição e, vez ou outra, surgem sabe-se lá de onde e como, sem nenhuma tradição querendo tomar os seus lugares. Não pode. A não ser que venham comer na nossa mão, pensam.

Volto ao caso recente. Paradoxalmente, a manutenção do status quo político contou, nesse episódio, com a estranha ajuda de gente crítica. Salvo as exceções, analistas e jornalistas que descem a lenha nos partidos atuais, e com razão, porque cheios de corrupção e dominados pelo clientelismo, foram os mesmos que desbancaram a pretensão de Luciano Huck. Fadado ao fracasso, não entende do ramo, foram algumas das avaliações. Ao desistir, amplamente os editoriais o elogiaram: sensato.

Todos foram conservadores. É curioso, para não dizer tragicômico. Existe um anseio enorme pela renovação política, uma necessidade urgente de mudança na sociedade. Ninguém aguenta mais o que aí está. Mas quando o novo bota a cabeça de fora, logo lhe exigem as clássicas credenciais. E, não as ostentando, degolam-no. Cobram experiência, favorecem o sistema.

Ainda bem que outros cidadãos audazes andam se aventurando por aí. João Amoêdo vai em frente pelo Novo 30 e Paulo Rabello de Castro segue pelo PSC. Pouco importa a chance eleitoral deles, menos ainda suas propostas de governo. Merecem aplausos. Ambos, talentosos economistas, irão oxigenar o debate sobre o Brasil que queremos construir.

Seria alvissareiro contar com Luciano Huck nessa discussão, trazendo sua sensibilidade, seu ponto de vista, provocando a discussão. Mas ele caiu fora, cedeu aos críticos, arautos da experiência. Que, no fundo, parecem não querer mudar nada.

 

Fotos e link total de:https://www.poder360.com.br/opiniao/eleicoes/e-paradoxal-a-critica-a-luciano-huck-na-politica-diz-xico-graziano/

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