A genialidade que caminha

Gênio atemporal do futebol, Messi precisou correr menos de 5% do tempo para deixar o Santiago Bernabéu de joelhos

Mais espantosa que a atuação de Lionel Messi contra o Real Madri, no último sábado, foi a divulgação de um levantamento do jornal espanhol El Periódico que mostra a sua movimentação em campo: durante 83% do clássico, a pulga nem pelou, nem correu, apenas caminhou. Para demolir o rival em seus próprios domínios, precisou correr apenas durante 4,95% do tempo.

A evolução física do futebol nas últimas décadas é fato sabido e cantado por todos: hoje, um jogador pode percorrer até 13 quilômetros durante uma partida, enquanto nos anos 70, por exemplo, esta distância oscilava entre 6 e 8 quilômetros. Os vídeos do tricampeonato brasileiro no México estão aí para provar – há uma insuperável e LETÁRGICA beleza quando vemos Gérson apanhar a pelota na meia-cancha, olhar para todos os pontos cardeais, fumar um cigarro e depois desferir um lançamento perfeito, sem que nenhuma camisa adversária praticamente aparecesse em seu campo de visão.

Tanto mais surpreendente no levantamento do jornal espanhol, portanto, é perceber que Messi correu exatamente aqueles setentistas OITO quilômetros, nada mais que isso, para desossar o Real Madrid. A distância relativamente modesta percorrida impressiona e nos mostra que há certos aspectos do futebol que independem do avançar das eras. É descabido comparar jogadores de épocas diferentes, mas também não há por que duvidar que os monstros de outrora, do tempo que se amarrava cachorro com linguiça, como diria Felipão, seriam fenômenos também hoje. Assim como Messi é um gênio atemporal, e o seria mesmo se tivesse jogado nos anos 1950.

O bote da pulga não está, obviamente, nos 6,67 quilômetros que Messi passou caminhando sobre a relva, mas naquele 1% do tempo em que emergiu sua indomável e galopante genialidade: ele decidiu o jogo correndo 400 metros e com sprints que, somados, não alcançam 100 metros (1,15% da partida). Suficientes para deixar Suárez na cara do gol, transformar Marcelo em um guardanapo molhado e deixar o Santiago Bernabéu de joelhos.

Messi é incomparável atualmente porque há nele uma essência de futebol ancestral que inexiste nos seus contemporâneos – pode demolir defesas correndo dez ou dois quilômetros. Ele sempre será superior quando for necessário ser superior. Uma versão ultra avançada daquela regra de ouro das várzeas e potreros – os demais que corram, desarmem e depois procurem o gênio, solenemente solícito para receber a bola. Ele vai saber o que fazer. Caminhando, voando ou mesmo sentado em campo.







 

Fotos e link total de:https://globoesporte.globo.com/blogs/meia-encarnada/post/2017/12/27/a-genialidade-que-caminha.ghtml

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